A morte e o velório
Me considero uma pessoa de sorte, pelo menos no sentido de nunca ter precisado passar pela dor da separação. Talvez, a sorte não seja minha. Talvez as pessoas que me cercam tenham a sorte de gozar de boa saúde ou qualquer outro fator que eu não conheça.
Meu primeiro contato com a morte foi com o falecimento de minha avó materna, que aliás nunca cheguei a ter uma relação. Acho que a vi umas 2 vezes. Uma quando fui a casa dela, em recife quando eu tinha 2 anos e a outra quando ela veio aqui pra São Paulo visitar minha mãe, quando eu tinha uns 4 anos. Ela teve um ataque cardíaco e faleceu. Lembro de minha mãe muito triste, mas não entendia bem o motivo.
Meu segundo contato com o inevitável foi quando meu tio Otacílio faleceu. Eu tinha uns 5 ou 7 anos e também não entendia muito bem o que estava acontecendo. Nessa época, telefone era um luxo e nem me lembro como meus pais ficaram sabendo de seu falecimento e muito menos como chegamos a tempo do velório, já que o velório foi em Guaianazes e na época nós não tínhamos carro. Meu tio era taxista e era bem e querido conhecido naquela região. Ele foi assassinado com um tiro na nuca e nunca pegaram os criminosos. Também não se sabe ao certo se foi uma tentativa roubo frustrado mas enfim…
Claro que pessoas de certa forma próximas a mim faleceram. Amigos ou familiares de amigos de meus pais, mas eu nunca tinha presenciado alguém do meu próprio círculo de amizades vir a falecer. Até que em 2007 um colega de trabalho sofreu um acidente de moto inexplicável e veio a óbito.
Conhecia ele a bem pouco tempo, mas posso dizer que era um pai amoroso e responsável apesar da pouca idade. Uma pessoa saudável que não tinha vícios exceto bater uma bolinha as quintas-feiras, que aliás foi o motivo de seu falecimento.
Me lembro até hoje de minha reação ao saber que ele tinha se acidentado ao voltar pra casa de seu jogo de futebol. Primeiro achei que fosse gozação mas quando o gerente do projeto confirmou o acidente fiquei preocupado. As primeiras informações são sempre desencontradas mas o traumatismo craniano, fratura de costelas perfurando o pulmão juntamente com a fratura exposta do fêmur estavam alinhadas. Não tive coragem de ir até o quarto visitá-lo pois além de eu detestar hospitais em geral, ele estava em coma e sua família que era da Praia Grande (SP) tinha se deslocado até Florianópolis (SC) para visitar o filho acidentado.
Nunca saberemos o que houve. Nossa esperança é que ele acordaria do coma a qualquer momento e nos contaria o que realmente aconteceu, afinal era um cara saudável e rato de academia então não seriam alguns ferimentos que o levariam. Mas infelizmente o pior aconteceu e ele veio a óbito.
Este foi o primeiro velório que eu fui em minha vida adulta. Até então, eu nunca tinha entendido o porque dos velórios. Pra mim tudo não passava de mera formalidade até o momento que eu me encontrei com a viúva e a mãe dele. Claro que elas estavam inconsoláveis e não havia nada que eu pudesse fazer. Apenas as abracei longamente e disse que sentia muito. A mãe, aos prantos, não cansava de repetir que não era justo. A esposa anestesiada com a situação, acredito eu, estava quase em estado de catalepsia, pelo menos até o momento do enterro onde elá desabou emocionalmente chegando a um estado quase de histeria. Já a mãe, continuava repetindo que não era justo, que não ia enterrar o filho dela e que enterrar o filho dela era pedir demais. Assim ela continuou na capela onde aconteceu o velório enquanto o corpo de seu filho era enterrado.
Foi a partir deste momento que eu entendi o motivo real da existência dos velórios.
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